segunda-feira, 5 de junho de 2017

Aos olhos do Pai

"Eu sempre quis ser pai, sempre foi uma vontade muito grande.
Nunca vou esquecer o dia em que eu e Camila abrimos o exame de sangue. Ao ver o resultado ficamos um minuto apenas olhando um para o outro em silêncio, com uma mistura de todos os sentimentos possíveis.
De repente, toda minha concepção de paternidade mudou. Senti medo e alegria ao mesmo tempo, medo de não conseguir arcar com os cuidados que uma criança precisa e ao mesmo tempo uma enorme alegria por realizar esse grande sonho.


E eu que era um cara sempre sem grana, correndo atrás do prejuízo, ainda me encontrando profissionalmente, me vi vivendo um contraste muito grande, pois toda a vontade de ser pai, vinha com o peso da responsabilidade, medo de não conseguir dar conta disso tudo.
Passado o susto de saber que seríamos papais, veio o lado gostoso da gravidez: pensar em nomes, se seria menino ou menina, e já fomos apostando que qualquer que fosse o sexo, jogaria futebol ou altinha.


Até os 5 meses de gestação, eu idealizei um filho normal, sem doença alguma, como qualquer pai imaginaria, um filho ativo e inteligente. E claro, veio a tristeza com a notícia, pois não seria fácil, mas ao mesmo tempo foi extremamente motivador viver isso, pois me deu forças para lutar, e ser o melhor pai que poderia ser para ele.


E então, o Henrique nasceu.
E mesmo com todo suporte familiar e meu pai sendo médico (o que nos deixou muito mais confiantes e tranquilos), é uma batalha muito grande correr atrás de médicos especializados, exames, cirurgia, dentro do nosso sistema, mesmo com plano de saúde.
Comecei a correr atrás, pesquisar o que seria o melhor para o Henrique, para estimulá-lo, e assim diminuir o máximo possível os impactos da doença sobre ele. Se ele tivesse 1% de chances de ter uma vida normal, eu estava disposto a fazer que esse 1% fosse o melhor do mundo, apenas pensando em dar para ele a melhor vida possível. Com isso, passei a enxergar a vida de uma outra forma, como não estamos acostumados a ver.


Quando a Camila retornou ao trabalho, foi quando eu fiquei mais tempo com o Henrique.
Fui virando pai nesse tempo, pude perceber meu filho melhor, com a percepção que não tinha quando ele ainda estava na barriga. Entendi que tinha um serzinho que era meu, e precisava cuidar dele ao máximo e não havia tempo para outra coisa. Só comia e trabalhava de casa, intercalando com mamadeiras, banhos e fraldas.






Por mais que eu fizesse tudo possível para amenizar o sofrimento do meu filho, é muito duro saber que não poderia protegê-lo de tudo, das decepções e sofrimentos que passaria. Eu não sofria por mim, por ter um filho assim, eu sofria por ele. Por não saber o que se passava dentro dele, quando ele estava chorando, por exemplo, se era dor de cabeça ou um choro normal de criança. Como pais, vamos aprendendo a identificar, mas sempre existe uma angústia de não saber ao certo o que nosso filho sente.


Tive meus medos de não conseguir, tive minhas dúvidas, o que nunca foi empecilho para querer o meu filho e querer cuidar dele. Eu sabia que como tudo na minha vida, eu também daria um jeito de conseguir as coisas para o meu filho. Medo e dúvida são passageiros, por isso não podemos deixar tomar conta de nós. Eu sabia que era forte e teria forças para lutar por ele, até hoje, se ele ainda estivesse aqui. Acho que Deus foi bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque tirou o sofrimento que de repente, o Henrique estaria passando hoje em dia,  ruim porque tirou ele de nós, deixando essa saudade.


Ter um filho é muito bom! O meu filho me ensinou muita coisa, e mesmo ele não estando mais aqui, continuo aprendendo muito com a situação dele. A dar valor a minha vida, a vida de outras crianças, de outras pessoas. Sempre que converso com algum pai ou mãe, digo para aproveitarem muito seus filhos, abraçar, beijar, brincar bastante porque eu não posso mais, não posso tê-lo pertinho de mim fisicamente, apesar de tê-lo no meu coração e na minha cabeça. Todo tempo com nossos filhos é precioso, e eu queria ter tido mais tempo com o meu e não posso ter.
Não quero que ninguém pense nessa história de uma forma ruim, quero que pensem no Henrique como um professorzinho que veio para ensinar as coisas para a gente. Foi muito bom ter um filhinho como ele, com seu cheirinho, seu jeitinho. Hoje carrego o seu nome no meu peito, isso me conforta, e me lembra que fiz de tudo para acertar. E se errei foi tentando acertar, sempre.


A vida é uma só, acredito no hoje e no agora, e precisamos viver intensamente.
O Henrique me dá essa força de viver a vida com mais afeto pelos que amo, estar perto da minha família, dos amigos, estar mais presente e fazer o bem. Comecei a me envolver com permacultura e bioconstrução, graças ao Henrique,  justamente porque agora quero fazer o bem para outras pessoas, e esse é um trabalho que acredito. Se cada pessoa estiver disposta a fazer o bem, o mundo melhora.
Faço pelo Henrique, e pelas crianças que possam vir a nascer com o mesmo problema que o dele, tenham condições melhores e mais conforto, um dia.


E também acredito na evolução da nossa espécie, acredito que ele se foi para dar espaço para outras vidas virem, creio que ele cumpriu a missão que ele tinha aqui que era nos ensinar sobre a vida, e também fazer nascer esse blog para ajudar outras mães. A saudade fica, a dor passa. Eu vejo a saudade como parte positiva, pois me lembra tudo que ele me deixou de bom. A tatuagem no meu peito é com a data de morte dele, pois para mim esse dia me mostrou o que é eternidade e ele sempre será eterno para mim."



Depoimento: Henri Silva (Pai do Henrique)

terça-feira, 11 de abril de 2017

A Morte

Palavra que muito assusta, que poucos gostam de falar, mas é só uma palavra e o espiritismo ajuda a entender/aceitar um pouco mais.

A morte Segundo o Espiritismo

Para a Doutrina Espírita, antes de tudo, a morte não é o fim! O significado da morte para o Espiritismo foi revelado pelos espíritos superiores a Kardec, cuja missão foi mostrar ao mundo, o que ocorre após o desencarne (morte).
Diversos outros espíritas com o médium Chico Xavier contribuíram para elucidar e mostrar que a morte é apenas uma passagem para o verdadeiro mundo, o Mundo Espiritual. Chico Xavier transmitiu diversas mensagens de espíritos para os seus familiares, consolando os que ficaram e mostrando, ao mesmo tempo, que a morte não foi um fim, mas sim o recomeço de uma outra etapa, e que eles, os entes queridos, continuam existindo e ligados aos que ficaram pelos laços da afetividade. Até porque, a vida terrestre em um corpo físico, bem como a vida no plano espiritual, em um corpo sutil, são apenas etapas para o aperfeiçoamento e o aprendizado do espírito e, ao morrermos, nossas almas continuam e vão para o mundo espiritual levando na bagagem tudo o que aprendemos nessa passagem terrena.
Além disso, cada alma é única e tem uma essência própria, ou seja, no mundo dos espíritos ela continua a ser quem sempre foi, mantendo suas características individuais de personalidade.
Fonte: Doutrina Espírita em revista.


Sem duvidas esse post está sendo o mais difícil de escrever. Cada um com suas lembranças e dificuldades, mas é por ele que faço tudo isso. Por ele que crio forças para continuar com esse blog.

Dia 01/10/2012 (1 ano após seu nascimento), a internação que parecia não ter fim, chegou ao fim depois de 10 dias. 10 dias de tensão, tristeza, desespero, noites sem dormir e sem comer. Férias que pensei poder ficar e aproveitar meu filho foram as piores da minha vida.
Henrique ficou internado na UTI Neo e lá só podiam ficar os pais, nem visitas podia receber. Não arredei o pé dali, e cada vez que ia na cantina tentar comer algo ficava com medo dele acordar, sentir minha falta, chorar, sentir algo. Fazia tudo correndo. Até que na segunda noite internado, médicos foram de madrugada fazer um punção na cabeça pois achavam que a válvula estava entupida e por isso a febre alta. Quando estes médicos entraram no leito tive uma sensação estranha. Achei eles estranhos, coisa de filme. Feito o procedimento, eles saíram do leito e foram embora. Nesta noite dormi super mal, não só pela poltrona do papai que era super desconfortável, mas pela sensação que tive. Estava preocupada! A noite foi passando e na manhã seguinte Henrique começou a passar mal, ficou com falta de ar, começou a ficar roxo. Entrei em desespero!!! Comecei a gritar pq não tinha 1 médico por perto pra contar história. Uma fisioterapeuta que estava no plantão me ajudou, chamou a pediatra que teve a audácia de dizer: é apenas soluço, mãe! Falei aos prantos: claro que não, ele tá roxo e conheço meu filho!!! Rapidamente me tiraram de dentro da UTI, pois não podia ficar ali enquanto faziam os procedimentos. Nesse tempo, só conseguia chorar e liguei para o pai que tinha ido em casa descansar um pouco e pegar umas roupas. Ele chegou desesperado e não queriam deixá-lo entrar, mas ele queria ver o filho, com razão, e que se não abrissem a porta ia ser pior. Quando entramos ele já estava em coma, entubado. A partir daí os médicos começaram a liberar as visitas. Avós, tios, amigos...
Dia após dia, morando naquele hospital, o cansaço só aumentava mas junto com ele a fé de um milagre. Mas, infelizmente não aconteceu. Todos os dias recebíamos a visita de um capelão (O capelão é um integrante voluntário da equipe multidisciplinar da fé, é uma pessoa capacitada e sensível às necessidades humanas, dispondo-se a dar ouvidos, confortar e encorajar, ajudando nos presídios, escolas, hospitais e lares, ajudando as pessoas a lutarem pela vida com esperança em Deus. Oferece aconselhamento espiritual e apoio emocional tanto aos necessitados e seus familiares, como aos profissionais distintos).
Nestes dias conversamos bastante com o capelão e ouvimos muito suas orientações e preces. Até que na noite do dia 09/10, nunca me esqueço, em uma conversa com o capelão ele falou para rezarmos (eu e o pai) e pedirmos a Deus que esse sofrimento acabasse e que o melhor deveria ser feito. Fizemos exatamente isso naquela noite. E no dia seguinte, 10 de outubro de 2012 nosso filho Henrique veio a falecer. Acreditamos que a vontade de Deus foi feita e que se ele continuasse neste mundão iria sofrer muito. Ele está num lugar muito melhor e olhando por todos nós com muito carinho.


Em um dos dias mais difíceis da minha vida, tive a certeza de ter ao meu lado pessoas verdadeiras que me ajudaram e apoiaram.


Foto: Cemitério São João Batista - Desenho feito por Henri Silva (Pai do Henrique)
"A morte nos privou do que seríamos mas nunca do que já fomos."